terça-feira, 18 de agosto de 2009

CORAGEM

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é CORAGEM.”

João Guimarães Rosa

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ensinando a viver


Quando era criança, o escritor David Gordon sempre se sentiu excluído, se achava diferente, e cresceu sonhando com o dia em que os ETs viriam buscá-lo e levá-lo para casa, no espaço sideral. Os aliens nunca vieram, mas sua imaginação o transformou em um escritor de sucesso. No entanto, David ainda continua se sentindo um solitário, e mesmo depois de dois anos não consegue se acostumar com a ausência da esposa. Até que ele resolve adotar uma criança brilhante e problemática. Assim como David, Dennis vive trancafiado em seu próprio mundo de fantasia. Dennis acredita de verdade que é um marciano em missão de exploração na Terra. E talvez ele seja de verdade...

Torci o nariz quando me recomendaram o filme, mas me rendi por um único motivo: Não lembro de ter visto um filme que retrate tão bem o universo infantil como esse. Ele retrata a introspectividade da infância de uma forma absolutamente clara!

Numa maravilhosa analogia - que descrita aqui vai parecer piegas, mas não é - a criança é mesmo um marciano. Tudo é novo. É um mundo repleto de cheiros, cores, texturas, sons... Seus sentidos e suas sinapses vão rotulando, identificando, explorando cada sensação, cada objeto, cada pessoa.

O filme também fala de conceitos como amor, família, mas tudo isso – por mais que o amor seja imenso, lindo e realmente incondicional – passa ao largo diante da construção desse universo mirim.

Ah! Tem mais uma passagem bacana no filme, que é a insegurança de nos vermos pais. Até ele decidir de fato adotar o Dennis, David sentiu muito “friozinho na barriga” e questionou sua capacidade de ser pai, de criar uma criança, e só tomou mesmo a decisão quando se viu em Dennis.
Parênteses: Uma das melhores sensações do mundo é a gente se ver nos nossos filhos!

E como não pode deixar de ser, foi um aprendizado delirantemente prazeroso para os dois.

Paciência, persistência e esperança são três pequenos (grandes) atributos para a convivência com o ser humano. Amor (muito e sempre) e respeito à individualidade também é bom colocar no balaio.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O criador e a criatura


Ontem zapeando, madrugada, me deparei no meio de "Lua de Fel". Filme do Roman Polanski que não passa imune por ninguém. Amor ou ódio!

O filme conta a história de um casal de ingleses que embarcam em um cruzeiro marítimo, onde conhecem uma bela francesa e seu marido paraplégico, que conta a eles a história do relacionamento que tem com sua esposa.

O grande drama é como se dá a relação deles. O filme mostra claramente a necessidade do respeito ao limite da outra pessoa.

Os diálogos chegam a parecer "surreais"

E dizer que histórias como essa acontecem nos arredores...

domingo, 12 de julho de 2009

Declaração imodesta


Se eu fosse jornalista seria igual a Patrícia Poeta, cujo nome acho lindo (Não só pelo Patrícia, como se pode prever, mas a combinação com o Poeta é pura poesia, assim como a minha combinação também!) e fico orgulhosa* de perceber nosso estilo que, com certeza, seria o mesmo
* Desculpem a falta de modéstia dessa declaração, algo não muito comum em mim, mas vejo suas matérias sempre tão iguais ao meu olho...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Free at last


"Do ser mitológico diz-se que nasceu em meados do século XX. E que, tendo nascido homem, foi aos poucos transformando-se numa mulher. No fim, tornou-se um ser de aspecto hermafrodita, com sexualidade indefinível. Sabe-se que o ser mitológico nasceu negro e morreu branco. Foi, na infância, um adulto: compromissos profissionais, responsabilidades, obrigações e pressão foram experimentados desde cedo em doses altas. Na maturidade, tornou-se uma criança: gostava de brincar, passear em carrosséis e montanhas russas, ter crianças por perto e jamais compreendeu exatamente do que se tratava o tal "mundo dos adultos".

Do ser mitológico diz-se que foi acusado de abusar sexualmente de crianças, o que nunca se comprovou. O que se sabe com certeza é que foi brutalmente espancado pelo pai, na infância, e submetido por este a tortura e pressão psicológicas. É comprovado que durante sua existência o ser mitológico ajudou crianças pobres e doentes, não só com dinheiro, mas com carinho e compreensão verdadeiros. Com essas crianças comunicava-se da mesma forma com que são Francisco de Assis conversava com passarinhos.

Do ser mitológico compreende-se que revolucionou a música pop mundial ao elevar a música negra (é importante lembrar: não importa quantas transformações e mutações tenha o ser sofrido em sua existência, ele nunca deixou de ser um grande, talvez o maior, artista da música negra norte-americana) a um status nunca antes alcançado: qualidade musical irresistível, ousadia de produção, competência e muito - muuuiiito - suingue.

Quincy Jones, músico, maestro e arranjador de excepcional talento, ajudou o ser mitológico nessa jornada. Do ser mitológico aceita-se que tinha habilidades múltiplas - dançava, cantava e compunha como poucos - e que com elas conseguiu apaixonar pessoas do mundo inteiro, independente de suas raças, classes sociais, nacionalidades, religiões, crenças etc.

Dele compreende-se que foi coroado rei pelos humanos e amado por estes como um anjo. A morte chegou-lhe como alívio, inadaptado que era ao mundo estranho que o amou e não o compreendeu. Na morte sabe-se que a imprensa, que o criticara impiedosamente nos últimos anos de vida - e tanta atenção dera a suas bizarrices, idiossincrasias e excentridades - acabou por reconhecer que o que prevalecerá de seus feitos será tão somente a brilhante música que concebeu, cantou e dançou.

Diz-se por fim que, ao morrer, o ser mitológico livrou-se do corpo que era ao mesmo tempo depósito de dons e talentos e também de dores e sofrimentos. E que se lembrou, no último instante de vida, da frase do discurso de um grande e admirável conterrâneo: free at last!"

Tony Bellotto.

Lei


A partir de hoje baixei decreto: JUST BE

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ser estrangeiro


Convivi de perto com duas irmãs do meu avô materno. Minhas tias avós maravilhosas!
Isso fez com que sempre fosse muito sensível aos assuntos relacionados à velhice.
Devorei Leite Derramado do Chico Buarque em dois dias.
Me soou tão íntimo... A linguagem.... As palavras usadas.... Os devaneios...
E me deparei com esse corte: “ As pessoas não se dão ao trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro.”
E mais: “Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.”
A leitura me levou a ver o mundo através daqueles olhos já sem tanto viço.
Me fez pensar o que contaria dos amores que tive, do meu filho, do meu neto.
Terei sido feliz? Que velha serei?
E pensando e lendo e vendo esse universo, engulo seco, e fico engasgada... Até hoje é assim.

sábado, 27 de junho de 2009


Vi “Coraline e o Mundo Secreto”. Estava ansiosa! Roteirizado e dirigido por Henry Selick ("O Estranho Mundo de Jack"), é a adaptação de um romance infanto-juvenil de Neil Gaiman, escritor e autor de histórias em quadrinhos ("Sandman").

A personagem do título é uma menina de onze anos que se mudou com os pais para uma antiga casa no interior. Ela está entediada nessa nova casa, pois os pais vivem trabalhando e ela sente saudade dos seus amigos. Até o dia que encontra uma porta secreta e descobre uma versão alternativa de sua própria vida do outro lado da porta.

Aparentemente esta realidade paralela é muito similar a sua vida e as pessoas com quem convive – só que (claro!) é muito melhor. Sua outra família faz todas as suas vontades, tudo é mágico e encantador.

Até que esse mundo aparentemente perfeito fica perigoso e seus pais alternativos tentam aprisiona-la para sempre.

Uma grande sacada além das cores, flores, beleza, tudo bem carregado no outro mundo, e que os outros pais usam botões no lugar dos olhos.

Não há limites precisos entre realidade e fantasia, o onírico e o real. Assim como a fantasia da outra possibilidade é sempre mais colorida que a realidade.... Pelo menos até ela virar realidade.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

"We are the world"


Michael Jackson sempre foi tão grande artísticamente que precisou ele morrer pra virar humano.
Ele foi massacrado, perseguido, julgado e o que mais me faz sentir a morte dele, não é a perda de um inegável ícone artístico, mas sim saber que em 50 anos, a pessoa física Michael Jackson não conseguiu verdadeiramente viver.
Mas nós, vamos continuar ouvindo “Thriller” e falando de um grande artista que era negro e virou branco.
Ou melhor, agora discute-se sobre patrimônio, dívidas, overdose de remédios....
Que, finalmente, ele tenha paz!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"Simples" e sábio - Menos sempre é mais!


Escutatória de Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade: A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos....
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio..
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos... Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência... E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.